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22 de julho de 2015

Gastronomia da vida

Que bom seria se a vida tivesse aquele cheiro de fruta fresca que exalava no primeiro passo de entrada na casa de vó. Ou aquele aroma confortante de um shampoo durante um cansado banho, que será sucedido de um descanso em lençóis limpos e perfumados com amaciante. E seria maravilhoso sentir aquele sabor de tranquilidade e paz que só uma fatia de bolo recém-saído de forno acompanhada de café fresco podem proporcionar.

Mas a vida também tem sabor de eparema em dias de dores de estômago ou fígado. Ou aquele chocolate caseiro que chega com a embalagem mais brilhosa possível, mas que mantém aquele gosto intragável (para mim) e que não é digerido, apenas entope. Vivemos e sempre corremos o risco de sentir novamente aquela frustração ao pedir ao atendente da padaria aquele bolão de brigadeiro. E, na primeira mordida, você descobre a fraude de um simples e gelado bolo comum.

Ela adoça como uma noite bem vivida, um dia produtivo, uma conquista, uma gargalhada. Mas pode acumular a saliva azeda de uma decepção, fracasso e frustração semelhante a um suco de limão caprichado na ausência de açúcar. Pior é quanto tentamos nos enganar na vida da mesma forma que nos enrolamos ao colocar um adoçante. Não adoça, não amarga. Apenas razoável.

Não somos gastronomicamente educados. Menos ainda sentimentalmente. Enfiamos o pé, somos imprudentes, experimentamos, repetimos, devoramos, alteramos a receita, queremos mais. E sempre queremos aquele brigadeiro quente na colher de pau, a massa de bolo ainda na batedeira e que raspamos o recipiente com o dedo – o mesmo que usamos para raspar a caixa de leite condensado. Quem bom seria sempre sentir o queijo do reino derretido na boca, a batata frita com um salzinho a mais, o biscoito e confeitos que trazemos da infância. Comida é vida. E isso vai além da rasa rima.


15 de dezembro de 2010

Minha culinária

Esqueçam pratos gigantes contrastando com as pequenas porções servidas nele. E também o leve molho ou aquelas folhinhas estranhas que adornam o prato e que você não sabe se é enfeite ou se é comestível. A minha culinária é completamente oposta, é aquela bem popular.

A gastronomia que está ao alcance de meu grosseiro paladar é a que inclui a batata frita. Não, não é aquela servida em bares e restaurantes. Falo daquela vendida em carroças no meio da rua. Aquela que seca com um lustre em cima e cujo óleo já é escuro - principalmente às sextas-feiras. E o que é a higiene do local? De um lado, um tonel com batatas gigantes 'de molho'; de outro, aquela fileira de bisnagas com maionese, queijo ralado, mostarda e ketchup - que te faz pensar que, na verdade, é de goiaba diante da cor rosada. Quando muito, o 'funcionário' usa uma bata. E a unha? É sorte encontrar mãos limpas e unhas cortadas e lixadas. Mas o prazer de segurar aquele saco plástico (quando se paga R$2) ou de papel (de pão, acho - valor R$1) e a constante busca de equilíbrio para comer batatas gigantes com palito e molho escorrendo compensam. Acabei de comer uma.

Quer me acabar? Passa com a carroça de hot dog (sim, no inglês) quando eu estiver na praia. Aquele cheiro de mar quando se mistura ao do molho da salsicha abre meu apetite. E tem que ser daqueles de R$1 e que você ganha um copo de refrigerante sem gás. Salivei só de lembrar. "Moço, capricha, coloca tudo bem reforçado", sempre peço. Ou melhor: pedia. Agora o hot dog divide espaço com a empada de frango.

O próximo e último item do cardápio é aquele pastel. Aí tem que ser sequinho mesmo para descer bem. Mas faço questão que ele seja de 'vento'. Enche e enjoa pastel que vem muito recheado. A graça de comer o pastel semi-vazio é ficar na expectativa de encontrar aquela lasquinha de queijo coalho ou mussarela. Ou a dúvida de saber se já começou esse bendito pedaço.

Problema é só quando o organismo reage.
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