2 de fevereiro de 2021

Livros 1/12

Conforme não cumprido no ano passado (que se arrasta por 2021), trouxe uma meta de leitura para cá. Porém, sem meta rs. Apenas o desejo de me dedicar à leitura, e foi o que consegui fazer em janeiro: foram seis livros com temas, estéticas e estilos diferentes. Eis:




“O perigo de uma história única”, de Chimamanda Ngozi Adichie

Livro fino e com uma linguagem simples. Não sei se é o segundo ou o terceiro livro que leio dessa escritora nigeriana. Ela fala sobre as visões estabelecidas e, de tão reproduzidas, tidas como verdade absoluta. Isso vem por livros, filmes, histórias contadas, entre outros meios, que estereotipam povos em uma visão unilateral e superficial. Vou ler novamente porque acho que tenho mais para absorver de lá.


 

“Eu destilo melanina e mel”, de Upile Chisala

Os textos são curtos e as mensagens, intensas. Com leveza, poesia e rima, fala do que é ser uma mulher negra. Em uma das páginas, ela diz: “Eu amei essa pele muito antes de você respirar nela / eu não serei uma coisa bela a escura desfilada por aí / eu não sou para ser mostrada / eu não sou para a sua piedade ou para o seu prazer / amar a mim nunca será um ato de caridade”. Além disso, traz amor e romance, sempre ressaltando o valor e amor próprios.

 


“Super reciclinhos”, de Débora Rocha

Sou suspeita para falar porque conheço a autora e, ao ler, vem a voz dela contando a história da aventura que une crianças e adultos pelo bem da natureza. Mais que isso, consegue incluir, numa só história, menções aos nossos ancestrais, respeito às diferenças, importância do amor, afeto e solidariedade.

 


“Coragem”, de Rose McGowan

Pela capa, achei que o tema teria relação com o câncer. Pura visão limitada a minha. O corte do cabelo representa a libertação da mulher em meio a uma sociedade que estabelece o padrão de beleza que deve, inconscientemente, influenciar tantas outras mulheres. Mas esse é só um dos alertas da atriz. O livro é bem doloroso, especialmente para nós, porque fala de abusos sexuais e, tão violento quanto, do silenciamento das pessoas. No caso da experiência dela, da indústria chamada Hollywood. 



 

“Casagrande se seus demônios”, Casagrande e Gilvan Ribeiro

É o primeiro de três livros que falam sobre o jogador, militante, ser humano. A obra compartilha diversas memórias boas e ruins da vida de Casagrande com leveza e honestidade, que fazem a gente se sentir à vontade para chamá-lo de Casão também. Exceto duas colocações questionáveis (uma é um trocadilho de esquema tático na paquera em que o texto fala “a iniciativa partia muitas vezes das próprias garotas. As defesas se abriam, sem qualquer pudor, para ele entrar com bola e tudo” e outro que critica o humor politicamente correto de hoje em dia). No mais, é um livro muito bom, cheio de informação e que me fez continuar lendo sobre nas buscas da internet.

 



“A corrente da vida”, de Walcyr Carrasco

Juvenil, mas bem bom relembrar levemente a época do surgimento da AIDs e o preconceito que envolvia a doença, especialmente pela falta de informação. Remédios caríssimos, ausência de política pública para o tratamento e a alta taxa de mortalidade da época são registros tristes na obra, mas que mesclam com a solidariedade e amizade da turma da escola.

 

25 de agosto de 2020

Os pagodes dos novos coroas

 

Ouvindo uma live de samba do Grupo Entre Elas, voltei uns anos – bem poucos - e parei na minha infância. A banda estava cantando música dos anos 90 (me entreguei agora) e, claro, tinha Katinguelê, Só Pra Contrariar Os Travessos no repertório.

Época de usar roupas horrendas, mas é delicado falar isso porque a moda volta e lá vou eu usar de novo. Mas o fato é que, para além do estilo da época, ouvir a música desses grupos, que estavam no Domingo Legal sempre, era quase uma obrigação.

Assim como era a nossa de ir ao Vale das Cascatas, um clube clááássico aqui em Pernambuco. Não lembro exatamente onde ficava, mas a volta era marcada por esses sucessos, a tristeza de ter aula no dia seguinte e o banzo do sol e piscina. Ainda tinha o sofrimento com a letra dessas músicas, né? E olhe que eu nem sabia o que era uma dor de cotovelo raiz. A melancolia só era quebrada por um pacote de salgadinho que eu sempre vinha comendo.

Esse pagode ficou forte na minha vida por anos e, já na adolescência, íamos para clubes daqui atrás do show dessas bandas. Não tive o prazer de ver Salgadinho com seus óculos escuros, mas tenho na memória a apresentação de SPC, que teve que lidar com a falta luz antes da apresentação, e de Os Travessos. Desses eu lembro mais.

Pausa para relembrar ou conhecer o nosso astro:


Foto de internet maravilhosa

Já estávamos ~~grandes e era a fase de amanhecer o dia na rua para voltarmos seguras de ônibus. Lá fomos nós de ônibus para peruar a noite toda. Realidade: era tanta da briga que eu chorei do começo ao fim do show, fiz minha irmã ficar comigo e perder a apresentação também. Era de um nível de violência que arrastava as barracas dos ambulantes e sabe Deus o motivo. O show foi essa furada. Voltamos de manhã para casa, mas não o suficiente para entrarmos em casa. Mainha estava dormindo e não nos escutou, o que nos permitiu ficar umas horas sentadas na calçada do bairro. Depois que passa, tudo é memória, né?

Não terminaria esse post, que não está com muito sentido, sem deixar esse presente aqui:



26 de julho de 2020

Quarentena

Mais de quatro meses em confinamento e não consigo chegar a uma conclusão de como estou ou sairei dela. Esse questionamento sempre fica sem resposta durante as sessões de terapias iniciadas durante o isolamento. Os planos, coisa rara para mim, ficaram pelo caminho antes mesmo de a pandemia se instalar aqui no Brasil. Não posso nem usá-la como desculpa para o abandono dos objetivos.

Enquanto isso, tenho feito coisas que nem cogitava, como malhar (ok, optei pelo nível de iniciantes no aplicativo, mas já comprei colchonete esportivo) e participar de um programa de meditação. Ambos exigem disciplina, um defeito gravíssimo que tenho e sempre ignorei. Agora, como boa parte das desculpas foi embora (ausência de tempo, trânsito, custo...), precisei olhar com atenção minha falta de comprometimento e envolvimento com algumas coisas.

Fiz a inscrição em três cursos e evidentemente eu não ia conseguir dar conta deles. Fato. Precisei escolher e me dedicar a um e assim o fiz. Cumpri toda a carga horária do Reaprendizagem Criativa e, apesar de algumas aulas serem exaustivas, foram bem prazerosas e ricas. O certificado vale muito mais que a inclusão no currículo. Assisti a várias lives, de sertanejo a palestras sobre feminismo e questões raciais.

Também voltei a ler livros. Talvez até tenha batido a meta mensal que estipulei no começo do ano, mas não estou me atendo a isso. Li alguns pfds e descobri que meu pacote de internet dá direito a uma obra digital por mês. No entanto, o que realmente me fascinou foi receber livro em casa e poder, depois de uns dias isolados, folhear, sentir a textura e ter pena de abrir ou dobrar as folhas.

Descobri ainda que podemos consumir dos pequenos. Baseei minhas compras nos mercados, quitandarias, papelarias e padarias de bairro. Ah, vendedores de quitutes congelados e de cerveja também entram nessa relação. Capinei, troquei tela das janelas, montei cadeira de escritório, matei mosquitos, mudei posição do quarto, , ganhei calos nas mãos de tanto usar o rodo para passar pano e ressequei os pés, quando ainda deixava eles em contato com a água sanitária – que, aliás, manchou algumas roupas nesse período.

No mundo lá fora, mais de 86 mil mortes. Um número muito maior de pessoas chorando suas perdas e tendo suas dores questionadas, menosprezadas, diminuídas e desrespeitadas por um desgoverno desumano e desonesto (des, des, des) e pelos seus seguidores. Às vezes é melhor só olhar para as coisas da casa mesmo como forma de respirar e respeitar essa sociedade doente.


6 de julho de 2020

Rádio

Acho que pessoas com menos de 20 ou 25 anos não vão entender o sentimento deste post. O grande astro do texto é o velho e bom rádio de pilha. Siiiiiiim, esse equipamento de pilha incrível que embalou vários momentos de gerações e foi, por um bom tempo, o veículo mais rápido a noticiar as coisas (#chupainternet). Esse tema me veio à mente depois de ouvir um programa na Rádio Cidade, de Caruaru, nesta noite.

Fone de ouvido nem era considerado na época. A graça mesmo era colocar o rádio no ouvido (por isso colo meu ouvido num radinho de pilha) e sentir as vibrações. Ele, inclusive, era o grande companheiro dos torcedores nos estádios e completava a atmosférica futebolística. Não sei se continua ou se também foi substituído pela transmissão via celular, o que evidentemente não é o mesmo ritual. Cadê a arte de girar o botão ouvindo aquele grunhido até sintonizar? E subir a antena para melhorar o som? 

Crédito: internet

Eu sempre gostei de ouvir música e, antes dos reprodutores e streams, era ele a fonte. O mais moderno depois dele era o rádio-relógio, que me permitia saber o top dez das paradas de sucessos da época. O radinho era companheiro, mas eu não tinha dinheiro para comprar e manter um, afinal tínhamos que trocar as pilhas constantemente. 

Acompanhar o programa hoje, em plena noite de domingo, me fez voltar uns vinte anos. Fui direto para um dos auges da crise financeira em minha família. Morávamos de favor na casa de uma tia e, diante do espaço, dormíamos na sala. Nessa época, eu a-ma-va colocar o rádio que meu tio emprestava embaixo do travesseiro e dormia ouvindo aquelas canções românticas e em inglês. Eu não entendia nada, mas as traduções/declamações me faziam sentir todo o clima de amor, mesmo sem eu ter um. Na época, acho que gostava de Diogo, galã da escola e que nunca notou que passei a colocar batom vermelho por ele.

Lembro que dormir enquanto ouvia o locutor e as músicas era um dos meus momentos mais felizes nesse período. O tempo mudou e hoje, que poderia comprar um rádio, não o tenho. Continuo ouvindo música e, quase sempre, adormeço enquanto algum artista canta para ninguém, pois durmo na metade da primeira canção. 


29 de maio de 2020

Antirracismo


Depois de um longo hiato, voltei a comprar livro. A quarentena me fez perceber que não tenho habilidade e nem disciplina para leitura de obras no formato digital. A concentração, já limitada, esbarra nas notificações e na tentação de usar aplicativos de jogos. Como demos a mainha um vale-presente, aproveitei e comprei um livro para mim.

E a escolha foi nada menos que “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro. Já tinha ouvido e lido algumas coisas sobre ela, assistido a algumas lives e foi natural o caminho para ler o trabalho dela. Ainda estou na metade dele, mas já confirmei o quanto ainda sou racista – e olhe que tento quebrar conceitos e hábitos absurdos, mas que parecem comuns de tão rotineiros que são.

O dedo já coça pelos outros livros, mas ainda preciso terminar de ler este, assimilar e questionar minhas posturas (ou a ausência delas). Por ora, cabe indicar essa leitura e parabenizar Djamila por conseguir transformar um assunto dessa profundidade em um texto fácil de ler e comprometido com a urgência e importância dele.

                                                 

23 de janeiro de 2020

Preconceito


Morando a uns tantos quilômetros do trabalho agora, nem sempre tenho carona para os trajetos. E ontem foi assim. Voltei de ônibus e, diante do horário de pico, ele estava cheio e optei por ficar antes da catraca. Coloquei minha mochila no chão e me acomodei, dentro do que é possível em um sistema de transporte deficiente como o nosso. Não sei em que momento isso aconteceu, mas olhei para a porta dianteira e vi que tinha acontecido algum mal entendido entre o motorista e um rapaz. Coisa simples e sem exaltações.

A partir desse momento, passei a observar mais os dois. Pouco tempo depois, presenciei o seguinte diálogo:

Cobrador: ei, vai passar ou já desse a real para o motorista e dissesse que tás de carona?
O rapaz, meio emputecido, disse: falei
Motorista: falasse o que pra mim? falasse não
Rapaz: deixa, abre que eu vou descer
Motorista: é assim, é? Vai não. Só vai descer quando eu quiser




Eu estava na mesma situação que o rapaz: não tínhamos pago a passagem e estávamos dentro do ônibus. Confiaram que eu pagaria e duvidaram dele. Qual a diferença? A aparência. Tal qual o vídeo que circulou nas redes registrando alguém que teve o celular furtado no ônibus. A vítima acusou uma mulher negra de ter cometido o ato. Imediatamente, ela é revistada pela polícia e exposta para todos os passageiros. Chamou minha atenção  o quanto ela parecia estar habituada a esse tipo de situação, de humilhação. Era um conformismo sofrido, mas insonoro. O vídeo é um pouco longo e o melhor está no final: quem havia furtado o item foi outra mulher. Branca, loira e de ~~boa aparência~~.

O rapaz de ontem é negro e estava despenteado. Usava roupas roupas simples e gastas, um chinelo e estava agarrando uma mochila. A diferença entre nós era a cor - acho que sou parda-, e eu estava com roupas mais conservadas, embora velhas.

Isso foi o que nos diferenciou, na visão do cobrador e motorista (dois profissionais tão sacrificados no mercado e mal pagos). A imagem determinou a conduta deles e norteou o tom da intolerância. O preconceito deu a eles o álibi para agirem dessa forma. Claro que o rapaz estava puto. E acredito mesmo que ele estava pegando carona e não tinha condições de pagar, mas eles não sabiam se eu tinha dinheiro. Eu também não havia dito que ia esperar esvaziar, que ia pegar carona..nada. Nós dois apenas subimos e nos acomodamos.

Intervi e entrei na conversa para avisar ao rapaz que pagaria a passagem dele. E a minha. Ele passou e ganhou o direito ao respeito, tão comum a quem tem condições de bancar qualquer coisa neste pais. O que não passou foi a minha indignação. O que não deve ter passado também foi a dor dele.

20 de janeiro de 2020

Metas. De novo


Depois de mais um ano, finalmente um post. Pensei em vários temas durante essa ausência, mas esqueci cada um deles e acabei não produzindo nada. Este também não é lá algo muito elaborado, mas o importante é começar e tirar o mofo deste humilde blog.

Dicionário.com.br


Clichezão, ele será meu planejamento para este ano, embora já estejamos em meados de janeiro. Algumas coisas já comecei e outras nem sei se vou cumprir. Mas, como conversamos em uma reunião de trabalho um tempo atrás, é melhor começar de forma inacabada do que esperar alcançar a perfeição.

Pois bem. Vou listar que devo fazer mensalmente e me comprometerei a vir aqui registrar o que cumpri e o que não...RISOS. De nervoso.

Lá vamos nós com as metas:

Leitura de um livro de qualquer gênero literário;
Duas idas ao centro para assistir palestra;
Alimentar planilha financeira;
Guardar R$ 50;
Assistir a um filme ou documentário que tenham conteúdo (sobre meio ambiente, comunicação...)
Jogar futebol uma vez.

Pronto, está bom. Parece pouco – e acho que é mesmo – mas não vou repetir erros do passado, como o de listar o céu e o impossível e não cumprir nem 1%.

14 de dezembro de 2018

A você, Seu Marcos


O que pode acontecer em 32 horas? O que você já viveu nesse tempo? Imagino que um monte de coisa, sendo a maioria atividade rotineira. Trivialidades que nem chegam a ficar em nossa memória. Encerro esse ciclo de pouco mais de um dia neste momento. Ontem, às 6h, te ganhei. Hoje, às 14h, escrevo para lidar com sua ida para Deus. Foi o meu bom dia saber que você havia sido pego por cachorros. Combinei com Deus que iria te resgatar, mas que Ele ficasse à vontade se já fosse a hora de levar. Não era. Passei e te encontrei embaixo de um pneu. Com a respiração difícil, você resistiu. Me mostrou os dentes, mas te respeitei e acho que você confiou em mim. Logo, estava aninhado em meu colo.

Não sei de onde você veio. Mas, se estava na rua de madrugada e exposto a qualquer coisa, faltou lar. Acomodado no lençol enquanto esperávamos o uber, ouviu perguntas de gente que voltava da atividade física ou ia para o trabalho. Nenhum oferecimento de ajuda. Apenas a vontade de saciar a curiosidade e/ou, ao me ver ali, aliviar o peso na consciência (de quem tem). Isso doeu em mim. Àquela altura, não sei se doía em você. Foi tantas vezes ignorado que pode ter ficado anestesiado, assim como milhares ao nosso redor.


Tentei te mostrar que ainda há amor nessa vida, oras. Que vale a pena lutar!



O motorista, um senhor simpático que ouvia chorinho, trouxe de alguma forma paz e esperança para a gente. Chegamos à clínica e fomos direto para a sala de emergência. Vou pular a parte do diagnóstico, não tem importância agora. Fiquei lá, não te larguei um segundo. Talvez alguns. Segurei o oxigênio, suas patas e tentei te distrair para não sentir a agulha tentando achar sua veia. Você mantinha os olhos fechados e pouco chorava. Fingi que não estava vendo a preocupação da equipe médica. Falhei ao transparecer preocupação com o custo daquilo tudo e com tanto mediquês. Você começou a medicação, fomos para as salas de exames e fui chamada à recepção para fazer o cadastro.


- Nome?, perguntou a atendente.
- Er...Seu Marcos, respondi, lembrando que foi o porteiro que me falou de você.


Voltei para você e percebi minha completa falta de habilidade para acariciar um gato. Com cachorro sempre foi mais fácil. As minhas são grandes, sei onde pegar e quais os pontos mais sensíveis.. Eu não sabia suas preferências. Nada. Mas pera. Carinho é sempre bem-vindo. Então, eu estava lá te catando, apertando sua almofadinha e pegando em sua orelha. “Eita, vai ficar tão lindo quando terminar essa fase”, pensei. Era um misto de afeto, medo do que viria, julgamento da sociedade. Sabia que, neste mundo de adultos, parece um crime olhar para um animal de rua e cuidar dele? Pois é. As pessoas estão ocupadas demais com suas vidas. E sabe de outra coisa? Não tem um mês que um cachorro aqui morreu a pauladas e esse foi um dos assuntos mais comentados. Foi de uma sensibilização linda. Pena que há um buraco enorme entre as redes sociais e a realidade.

Você ficou internado. Seu corpo seria aquecido e o remédio faria efeito. Eu voltei de noite para te visitar. Quarenta minutos de espera e fomos ao internamento. Meu Deus, você estava mais esperto. Se mexeu, abriu os olhos e me mostrou uma cor linda. Elogiei. Te dividi um pouco e grudei de novo. Você se aninhou, fechou o olho e curtiu meu carinho até termos que ir embora. Tinha reagido, embora ainda fosse ficar internado. O dia, que tinha sido mega puxado, já tinha compensado. Bota no chão os questionamentos das pessoas, o espanto, as críticas. Nada disso tem importância mais.

Hoje procurei saber de você e a notícia foi desanimadora. Piorou. Corremos para ouvir mais opinião, liberei a realização de outro exame, negociei horário para te visitar. Antecipei meu almoço, mas não consegui chegar ao fim. A ligação veio antes para me falar que você não tinha resistido. Não me contive. Não é bem um dor de consciência. Pode ser o sentimento de impotência, talvez, e a tristeza por não saber que era uma despedida. Tínhamos combinado que você sairia dessa, rapaz! Não sabia ainda qual seria seu destino, que jamais seria a rua novamente. 


Peguei a bicicleta e fui o mais rápido que pude. Após outra espera, te vi. Seu corpinho já frio esperava a remoção. Foi respeitado por todos, até pelo cachorro que parou de latir. A médica explicou tudo enquanto eu apertava de novo sua almofadinha. Olhei mais uma vez cada parte sua, levantei e fechei as patas, toquei na costela, na orelha. Fui invasiva, visse? Desculpa!


Entendi ali que não é o tempo que define a intensidade da dor. Senti como se tivesse revivendo as outras despedidas que tive. É o envolvimento. Guardei uma frase de João Gilberto que li em exposição há mais de um ano e acho que chegou a merecida hora de usar: "Aquilo que é bom não morre nunca. Pode desaparecer por um momento. Mas só. Somente a qualidade decide sobre a perenidade”. 

Como não era o tempo que ia  determinar minha dor e amor, cheirei sua orelha – um hábito que tenho com minhas meninas. Você foi meu menino e merecia esse amor por mais tempo. Merecia que ele fosse preventivo e chegasse a tempo de você ainda acreditar na humanidade. Por favor, chega aí e encontra os meus. Diz que estou com saudade e que sigo tentando não decepcionar. 

Você foi lindo aqui. Você é livre aí.




13 de agosto de 2018

Música e memória




Meu primeiro cd pirata foi o de Terrasamba. Era uma febre porque a gente-podia-ter-nosso-artista-em-casa-por-uma-pechincha!!!!! E assim vieram mais. Nem lembro quais foram.

Fato é que estava na Noite das Meninas, famoso evento aqui em casa, e colocamos na tv algum show de Roupa Nova e, em seguida, tocou Fábio Jr. Aquela bad, né? Lembrei de uma época (rara, bem rara rsss) de aperto de vida que passamos.

Já deve ter em algum post aqui, mas a casa era sofrida e nós também éramos, embora também houvesse muita alegria. Eu colocava esse bendito dvd - e também um de Isabela Taviani - para tocar na apertada e aquecida tv da sala. Isso era um estímulo para fazermos uma renda extra lá em casa. A gente, que nem computador tinha, digitava formulário de carteira de estudante. Não tinha fim. Os papéis brotavam e, graças a Deus, nossos braços continuaram inteiros. 

Não lembro ao certo, mas parece que cada formulário valia uns R$00,20. Isso mesmo, população. Uns vinte centavos. Foi trabalho, viu? Até vovó, quando ia para lá, digitava. Cada um colaborava um pouco e ajudou a custear alguma coisa - mainha lembrou agora que a grana cobriu três meses da faculdade dela.

Deu um saudosismo agora. E olhe que nem era um tempo de ápice de alegria. Se bem que ninguém vive uma eterna felicidade, assim como a tristeza. Nesa época, cada centavo era uma comemoração. Não tínhamos internet, tv fechada, balcão inteiro na cozinha, porta no banheiro. Ah, não tinha banheiro. O cadeado das portas principais podiam ser abertos com um espirro.

E nada de mau nos aconteceu. Passamos por essa fase, por outras e estamos em mais tantas. Mas algo me prende a cada fase. É algum tipo de saudade. Uma soma de dor com vontade de voltar e ficar um tempinho lá nos vendo viver. Do jeitinho que era.

5 de fevereiro de 2018

A memória de locadora



Ficamos uns dias sem a tv por assinatura em casa. Aliado a outros fatores, foi entediante depender apenas da Netflix. Mas fui salva por uma memória de uns dez anos atrás, pelo menos. Já era o fim das locadoras, mas ainda havia uma em Água Fria, que funcionava em uma casa velha e com cheiro de madeira.

Na infância, eu vivia na locadora nos finais de semana. Era uma tarefa quase programada. Sabia que voltaria com três filmes – para assistir em videocassete - e que aproveitaria a promoção. Geralmente você locava um lançamento e ganhava catálogo. Ou algo assim. Mas o ruim de levar lançamento era que a gente tinha que devolver em 24h. Lembro que eu andava um tempão pelos corredores (não muitos, afinal, era Rio Doce) e olhava exatamente as mesmas capas da semana anterior. Você escolhia colorido e vinha numa caixa preta e branca. Havia as divisões por gênero e a famosa-parte-proibida-para-menores. E aquilo sempre deixava curiosidade. Mas não me atrevia.

Quando muito estruturada, ali mesmo eu já comprava salgadinho, confeitos e afins para minhas sessões. Geralmente, vinha “Nove Meses”. Eu não sei o que tinha nesse filme para me atrair tanto, mas o fato é que, por semanas, eu só voltava com ele e assistia mesmo. Ninguém lá em casa me acompanhava mais na sessão.

Eu gostava tanto de locadora que essa era uma das brincadeiras. Separava e catalogava as fitas do videogame, empinava o colchão, montava a TV (ligada no canal 3) e abria minha locadora. Eu só não tinha a inteligência de perceber que eu passava o dia vendo meu primo jogar, já que ele locava, e eu ficava ali só esperando o outro cliente entrar – o que nunca ia acontecer, não é?


Em menos de 20 anos, tudo mudou. Passamos a locar dvd, o que evitava o trabalho de rebobinar a fita e a pena de multa se não levássemos assim. Mas ali já era uma decadência desses espaços mesmo. Perdemos e ganhamos para a internet. Tudo está nas plataformas e me sinto velha falando isso. Foi muito rápido. Mas se tem uma coisa que não mudou foi o tempo que circulo nas categorias para escolher os filmes que vão para a infinita “minha lista” e os que pretendo assistir na hora. O prazer é o mesmo, mas ainda falta o cheiro da locadora que não volta mais, mesmo eu indo pelo Google Maps para reacender essa memória.

4 de dezembro de 2017

Doação


Então, pessoal, seguindo o calendário das doações com o saldo da campanha de Mocinha. Neste mês, compensando outubro, doamos para duas ações de Natal. Uma para a Comunidade do Cruzeiro, em Pontes do Carvalhos. Foram 133 brinquedos, também com a ajuda de mais dois doadores (essa estou sem comprovante aqui). A segunda é o Natal Feliz PE. Compramos R$ 100 em pirulitos, confeitos, chicletes, pipocas e afins.




12 de setembro de 2017

Doação II



Como combinado com os amigos que doaram dinheiro para a cirurgia de Mocinha, compartilho abaixo a segunda doação a alguma instituição que trabalhe com animais. Quem vive esse meio de resgates sabe o quanto é difícil conseguir engajamento das pessoas e ir em busca de captação de recursos. Encontrei hoje o "Gatinhos de Rua" e fiz a doação de R$ 100. Lembro que o intuito de postar não é jogar confete no ato, mas prestar contas a quem me ajudou nos cuidados de Mocinha.










27 de agosto de 2017

O lar

"Encontrei meu lar em você". Vejo tanto essa legenda e acho até que tem música falando isso. Facilmente eu postaria, já que encontrei várias pessoas neste vida que me deram lar em seus corações e abraços. Namoro, amizade, família, cachorro. Meus lares.

Mas, como a crise dos 30 continua aqui, estou pensando ultimamente em uma coisa: por que não somos lares de nós mesmos? Por que esperamos o convite (ou não) para que outra pessoa nos acolha e nos ajude a organizar nossos próprios desejos, anseios, medos? Que segurança é essa que colocamos no outro?

Claro que há abrigos permanentes, longos ou tão rápidos quanto uma reserva no Airbnb. Mas e nossa casa? Quando pensamos nisso, vem à mente as cores da decoração, qual estilo, pallet, luminária, se vamos ter algum amigo de estimação..Mas e a gente?

Óbvio que acredito que muitos já pensaram nisso, encontrando ou não a solução. Isso me inquieta agora. Na minha adolescência, marcada por inúmeras mudanças de casa física, tivemos que transformar espaços em lares. Não tínhamos outra saída ao olhar um espaço dividido e, por muitas vezes, deficitário e feio. Era ali que iríamos morar com a baixa renda que tínhamos. Não adiantaria ir a algum lugar incrível, bem localizado, mas sem ter a tranquilidade das contas pagas e comida na mesa. Assim, vivemos alegria e tristeza em apartamento no térreo e sem segurança alguma e casa com um cano aparente atravessando a sala e também sem proteção. Mas tivemos momentos incríveis, inclusive um banho de piscina (aquelas de mil litros) com toda a família e os petiscos que estavam a nosso alcance. Foi incrível.

Mas percorrer esse caminho para o campo pessoal parece mais difícil. Talvez por ser uma estrada de mão única, embora não percorramos só, talvez porque doa ou talvez por preguiça. Parece mais fácil chegar no lar de alguém. E aí perdemos o chão quando essa pessoa nos falta, sentimos a inconsistência do solo ao ter o território (ancorado no outro) minado.

Enquanto isso, nossa base está aqui esperando pelo "mãos à obra".  O texto deve ter parte II pela complexidade que nem tenho domínio ainda. É minha meta mais próxima e, até lá, espero ter entrado em mim e começado a ver o tanto de coisa acumulada, a abrir as janelas e me tornar acolhedora para mim mesma e continuar recebendo os outros que já moram aqui.

16 de agosto de 2017

Ser par

Procurei. E, nessa busca, vivi um pouco de um tanto. E veio. Ou porque Deus achou que eu já merecia ou era porque eu o venci. O fato é que veio. De repente, descobri o mundo a viver em par, mesmo vivendo em múltiplos.

Na contradição. Refrigerante x pitu cola; perfume simples x aromas  caríssimos e sem fins; all star x rasteira; dia x noite; camarão x queijo coalho assado; casa x balada. Veio na diferença, no querer conhecer, ser, viver, estar e caber no outro. Por ser o seu mundo, o melhor é mais quentinho.



10 de agosto de 2017

Da Cor do Pecado



Na palylist aleatória que está tocando agora no Spotfy, Palavras ao Vento, cantada por Cássia Eller. E, apesar de estar enfiada em um texto denso, fui jogada para 2014. Foi o ano da exibição de Da Cor do Pecado.

Assistia aos capítulos com minha irmã, e ela era apaixonada por Gianecchini, que fazia papel de gêmeos. Já era (ou ainda era) uma fase que não tínhamos dinheiro, pouca comida pra lanche e menos ainda para passagem da faculdade. Estou tentando resgatar mais detalhes daquela época. Mas o que mais marca, neste momento, é a saudade de ver tv com Taty, especialmente quando era filme besta, tipo o das gêmeas-que-se-perdem-e-encontram-boy-magia. Não tinha a menor graça, mas ela gaitava. E eu ria por nós.


Ok que agora, mesmo que ela estivesse no Recife, não teríamos como ver novela porque o horário de trabalho ainda compreende o da novela. Mas deu uma saudade boa e de dor.

Google

23 de novembro de 2016

Em algum lugar do tempo





Nunca entrei em uma máquina do tempo. Não faço ideia da sensação que deve ser avançar ou retroceder no tempo e nem os efeitos que a projeção ou nostalgia causa na pessoa. Não sei se é similar ao que vivi ontem ao visitar a minha avó. Todas as vezes que percorro o caminho, diretamente ao passado, abre um buraco de sentimentos confusos e, por vezes, sem que uma racionalidade explique.

Lá é uma terra sem wifi, televisão por assinatura, coloridos de casa moderna. A televisão exibiu uma tarja ontem lembrando que está chegando ao fim a transmissão analógica e que aquele aparelho não comporta a tecnologia digital. A tv que assistia no quintal não existe mais. Ali, apenas o suporte dela.
Pouca coisa mudou. Na verdade, pouco ganhou evolução. A casa abriu espaço para reformas de adaptação. De banheiro, de piso, de apoio, de cama, de iluminação. A acessibilidade ganhou espaço para vovó. Com 97 anos, Alzheimer e Parkinson, ela sobrevive a uma memória minha, que dói cada vez que a encontro.

Ali está uma estrutura física do meu passado. Voltar ali é rever minha infância, com casa cheia de primos e tios, um cachorro (que morreu quando eu ainda era criança), Domingo Legal e muito caranguejo que vovó fazia. Sempre gostou de cozinhar. E a gente sempre gostou de ir lá entrar na área da bomboniere.

Aliás, como tudo ficou pequeno, menos o aperto no peito. Os quartos pareciam maiores, assim como a parede que ostenta quadro dos netos – nunca estivemos lá. O muro que fingíamos ser cavalo parece mais um batente do que uma sela. As plantas, uma das paixões de vovó, foram morrendo pouco a pouco; as panelas, sempre brilhantes de tanto cuidado, estão encostadas e não são dignas de serem utilizadas para o cozimento de um alimento com restrições.

A barsa, essa sim, continua lá. A enciclopédia está, desde que me entendo por gente, no quartinho perto da copa. Ali é um amontoado de sobras, arquivos e mais um monte de coisa que passa batido no dia a dia. Apesar de conhecê-lo, nunca foi meu canto preferido. Era escuro demais e eu tinha medo.

Minhas referências estão naquela casa branca, com um arco na entrada. O aquário com iluminação rosa, o quadro que retrata a luz da lua no mar, os mesmos equipamentos eletrônicos, uma agenda telefônica azul e jogos de louça que orgulhava vovó. Poucas coisas permanecem lá. Minha infância, meu pai, vovó, as brincadeiras com os primos, os vizinhos das brincadeiras de rua, as festas juninas e natalinas, os senhores que moravam ali. Um deles, soube ontem, faleceu e fiquei em choque. Mesmo sabendo que já era um senhor, foi mais uma perda de ligação.

Pouco que está ali continua na minha rotina. Exceto o contato com minhas tias, parece que houve uma quebra entre passado e futuro. Fui ali rever vovó. Ela não me viu porque dormia e assim continuou enquanto conversava com tia e jantávamos. Soube de todas as novidades, acompanhei o estado de saúde de vovó, olhei para ela. Vi uma pessoa que sempre foi durona com criança, acordava de madrugada e tomava chá no pires, fazia bolinho de feijão com arroz e o pirão. Quando adolescente, eu ia lá uma vez por semana e comia o tradicional macarrão parafuso.

Vi o quanto a vida é curta, apesar do quase um século dela, nosso corpo, frágil. As pessoas ao nosso lado têm muito mais do que demonstram. Os relacionamentos são cíclicos e temos muito a receber e dar pelo próximo. Vi que a vida, nesses meus 29 anos, tem me mostrado o quanto sou bem pequena diante de tanta coisa que acontece e, prepotente, acho que a entendo.

Foram minutos fitando aquela senhora na camisola bem simples, ventilador, medidas reduzidas e um coçar de pernas que mais parecia um afago nela mesma do que uma agonia. Dei um beijo na cabeça dela, como sempre fiz depois que passei sua altura, disse que a amava e esperei virar a rua para chorar.


25 de outubro de 2016

Geraldinho

Hoje acordei com saudade de jogar Geraldinho no histórico videogame que tínhamos em casa. Era daqueles que travava e a gente tinha que assoprar o cartucho para voltar a funcionar.


Mainha, minha irmã e eu virávamos a noite jogando. O desafio era zerar o jogo, mas ficávamos rezando o tempo todo para que não faltasse energia e a partida fosse pro beleléu.

Lembro que eram 50 fases. Quando chegamos nessa bendita, percebemos que elas se repetiam. Ou seja, total de nenhuma novidade. Eram os mesmos desafios. Geraldinho, o protagonista, atirava uma bala achatada. Ele tinha um nariz enorme e usava roupa folgada, meio que caindo. A gente lutava contra umas coisas estranhas e dava altos saltos pra achar o melhor lugar para matar os inimigos.

Também com o videogame fizemos vários torneios de F1. Estava com a trilha doa circuitos na minha cabeça, assim como o pipipipi que ecoava quando passávamos o grid. Lembrei também dos Jogos de Verão e do Vôlei. Esse era incrível porque a gente se baseava mais na sombra da bola do que nela. E não sei o que tinha com os jogadores, mas eles mudavam a direção do braço e o adversário fazia um baita ace. Perdíamos.

Passou esse tempo e deu muita saudade hoje.

22 de agosto de 2016

Menos números

  
Que a gente se faça bem. Essa foi uma resposta que dei dia desses em um bar. E parece banal dizer isso, soa óbvio mesmo. Mas fiquei com essa frase na cabeça e pensando o que ela representa de fato.

Não sei bem quando surgiu modelo de relacionamentos e não vou recorrer ao Google para isso. Mas acredito que somos acostumados a querer a relação e nos esquecemos da qualidade dela. E aí viramos aquela loucura de “ta ruim, mas tá bom e eu tenho fé que a vida vai melhorar”. É um samba.


Respondi isso porque quero que mais valha o tempo junto à pessoa, seja em que relacionamento for, do que as horas computadas. Como se fosse um balanço de empresas, que a cada trimestre libera os dados. E fica realmente mais numérico do que sensorial.

16 de junho de 2016

Pacto

Vinte e nove anos, mentalidade de uma senhora e disposição de uma múmia. Tem uns exageros nessa conta, mas é bem por aí.

Nada como o ócio para se enxergar. Sair da rotina cheia de compromissos, aliada ao clichê de nunca haver disponibilidade de tempo, é uma armadilha invisível e perigosa. Mas não nos damos conta disso até vir a crise. E ela nada mais é que um alerta para que você se mexa. "Tem algo doendo, está incomodando, presta atenção a isso", alardeia. E tudo o que ela quer dizer é: mexa-se!

Somando os conselhos que recebi até ontem e filtrando o que pode ser projeção alheia (outro perigo) ou não, voltei a um plano de vida. Algo meu, só meu e que depende apenas de mim. Todos os desafios listados podem ser executáveis. Criei regras, metas e pequenas recompensas. Li que se fizermos tudo ao máximo de privação podemos ficar desestimulados.

Uma vez, à noite, rabisquei na minha parede tudo onque precisava no momento. Havia itens materiais, como maquiagem e tênis, e outros que diziam respeito à reforma íntima. Consegui apagar alguns deles porque consegui obter. O que pesa mais são os desejos a alcançar. Obter e alcançar são beeeeeem diferentes. Esses últimos também são difíceis de mensurar, confesso. Mas, sendo honesta, talvez eu já esteja caminhando para essa conquista. E digo mais: elas são eternas.

Na verdade, tudo é uma busca constante. Talvez não tenha graça viver sem criar novos objetivos e viver apenas comemorando uma conquista ja empoeirada. Somos movidos à ambição. Uma pena essa palavra ter se tornado tão pejorativa. Mas, filtrada, nos diz para continuar buscando, movendo, saindo. E seja de que jeito for.

22 de março de 2016

ZC

Sair da Zona de Conforto dói. E escrevo em caixa alta porque é quase nome de lugar, assim como bairro. É onde a gente se acostuma a ficar por razões diversas.

Porque é quente (embora nem sempre), já sabemos como é, com quem estamos, quais as dores, quais as alegrias, dominamos a rotina..e por aí vai. Já temos toda a dimensão de como viver na ZC.

É mudança de emprego, fim de namoro, ponto final em lances que notoriamente não estão te fazendo bem, troca de casa. O que não falta é raiz que a gente tem, especialmente quando o solo não é (mais) fértil. Até que um dia você muda. De forma espontânea ou não.

Meu exercício é mudar antes que a própria vida dê seu rumo, geralmente com dores e traumas - que podem ser digeridos e absorvidos como aprendizados.

Ontem saí de uma de minhas zonas de conforto. Resolvi participar de um grupo de mulheres que  jogam futebol. Lidei com timidez, vergonha, tensão de ser eacolhida para algum time. Depois só me preocupei em jogar. Por fim, queria apenas sobreviver e controlar meu coração disparado. Hoje já estou no segundo relaxante muscular, mancando e cheia de dor.

Mas estar em quadra e apenas focada em jogar bola fez um bem incrível. Problemas, medo, antigas dorese novas decepções ficaram lá fora. Suar me fez bem. Cientificamente, há a explicação dos benefícios, mas não vou me alongar nisso não.

Fato é que o inusitado fez bem. Sair do plano de "um dia farei alguma atividade" me fez olhar para fora de mim e dar trégua a sentimentos.

Saia você também. Desprenda-se do que faz mal sob o argumento de "tá ruim, mas tá bom". Encara começar tudo ou algumas coisas novamente. Ou de forma diferente. Mas encara muda esse check-in na Zona de Conforto.

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